A CASA E OS QUINTAIS
Quando comecei a me perceber e perceber o mundo a minha volta,me vi menina,por volta dos cinco a seis anos...Menina que tinha medo de tudo,inclusive de gente, aliás,tenho até hoje,uma certa fobia social ,assim como minha mãe, acho que essa d... é genética. Contudo desde as minhas primeiras recordações sentia que ao meu lado havia uma força de proteção maternal imensa, minha mãe, meu porto.
Morávamos numa rua afastada, e numa casinha muito simples e humilde de número 258. A casa era pequena, de taipa, como todas as casas da rua; no inverno partes das paredes caíam e minha mãe , pacientemente,tirava talos de palha de coco babaçu e amassava barro para tampar ,havia uma sala com uma parte no piso de cimento,e outra sem piso, algumas imagens tiradas de revistas com foto de artistas e algumas paisagens coladas nas paredes - as quais muitas vezes passava horas admirando, imaginando uma outra vida que aconteceria naqueles lugares- além de um ou outro calendário com imagem de pontos turísticos e jardins floridos...
Tinha um quarto que mal cabia nossas camas e várias redes dos meus primos e da vó, malas velhas de guardar as roupas,uma com as roupas de domingo e a outra com as roupas de todo dia,e também o velho baú de madeira da vó que eu adorava mexer e acabava achando a imagem de uma santinha que ela colocava no cantinho,eu sempre me assustava quando tocava nela,as bolsas empenduradas na parede rachada e a corda de estender roupas sujas bem no meio do quarto,perto da janela ficava a rede da minha avó com um penico sempre pertinho...
O telhado vermelho cerâmica onde pelo amanhecer tantas vezes entretera meus pensamentos- quebrados vez enquanto por um ou outro rato que passava pela cumieira- reflexões e sonhos enquanto ouvia o cantar das corujas, grilos e outras ações noturnas, na madrugada, o cantar do galo, e ao amanhecer a "voz da comunidade".No terreiro da frente havia um pé de laranja bem ao lado da janela do quarto, passou-se muito tempo até ele desse a primeira e única carrega e depois morreu. A cozinha era minúscula com um telhado baixinho que tocava nossas cabeças, havia uma prateleira mal feita onde as panelas brilhavam ariadas por minha mãe,um fogão a gás pra fazer o café,uma mesa mediana e um fogareiro de uma boca só pra fazer as demais refeições,e o jirau pra lavar louça sempre cheio de cocô das galinhas...Muitas vezes me pegava pensando em como tudo era tão injusto, vivíamos praticamente com uma única preocupação "o que comer", só havia o básico para sobreviver,enquanto a TV mostrava um mundo tão farto e tão longínquo.Mas havia a esperança,aquela e aquela máxima," Não importa o que a vida fez de você, mas o que você faz com o que a vida fez de você", de Jean-Paul Sartre.
Cresci nessa casinha ao lado de muitos familiares adultos e primos quase todos que também da minha idade,desse período até mais ou menos os doze anos, brincávamos praticamente as tardes inteiras,parando somente para assistir algum programa de tv na casa de algum vizinho, objeto raríssimo naquele tempo,provavelmente era um desenho animado,ou um filme clássico,ou parávamos para fazer o dever de casa ou algum afazer doméstico,como buscar água no poço do Sr.Valdemar.
E nas brincadeiras, aqueles quintais eram o meu(e nosso) mundo,conhecia muito pouco além dali, somente a escola e a igreja,assim os quintais eram nosso tudo,inclusive nosso parque de diversões.
Ainda sinto o toque da areia branca entre meus dedos debaixo das mangueiras, cajueiros, goiabeiras e bananeiras, e se fechar os olhos e me concentrar mais um pouco, consigo ouvir ainda o cacarejar das galinhas,o zurro dos burros,o berro dos carneiros e o chocalho das vacas no curral.
O primeiro quintal era uma junção das três casas,era grande, tinha uma areia fininha e branca,e quando todo limpo,era satisfatório olhar,havia também um touceira de capim-limão no meio do quintal...O pé de margarida (hibisco),velho e enorme fazia uma sombra gostosa perto das biqueiras das casas...O pé de caju amarelo,
nunca na vida provei caju mais doce como aquele,era único...A mãe no verão gostava de deixar tudo varrido,com a vassoura de mato,embaixo dele. O pé de pião branco no meio do quintal que servia como farmácia e galinheiro...As duas palmeiras gêmeas ao lado do banheiro de palha...O pé de manga rosa e a casinha do forno ao lado...O pé de laranja sempre carregado e as plantas da minha avó e tia colorindo parte dele e ainda um ou outro canteiro cheio de cheiro verde que minha avó e minha mãe mantinham de praxi para os molhos de pimenta tradicionais.
E havia um outro quintal...o do fundo, que chamávamos de moitona,de mato fechado,por onde muitas vezes nos aventurávamos em brincadeiras mais atrevidas onde os adultos reclamavam logo e exigiam que saíssemos de lá.Era o lugar onde encontrávamos as frutinhas mais gostosas,maracujá do mato,goiaba, goiaba azeda,maria pretinha,tucum, marajá, anajá,marmelada,mutamba,jangada,azeitona, melãozinho,mata-fome e outras; onde subíamos nas árvores e nos balancávamos nas galhas mais finas,fingindo ser carro ou avião e voávamos alto...O curral,ao lado das casas, também era um dos lugares preferidos para as brincadeiras, tinha o lado do capim verdinho que servia de cenário para tirar fotos e do outro, o curral coberto que nos dava a melhor "brincadeira do cola". Eu tinha orgulho de tudo...
Os quintais dos vizinhos também tinham seus encantos,
todos com seus atrativos a parte e cada dia da semana o tour das aventuras era diferente e emocionante.❤️