AS SEMANAS SANTAS
Toda Semana Santa me traz lembranças de um tempo que era bom,na medida do possivel,e que me parece ainda melhor agora...Lembro dos preparativos pra semana... Colheita da roça que meu tio fazia, milho assado, cozido, canjica e pamonha que minha avó preparava,macaxeira, abóbora,o preparo da puba,da tapioca,das broas,dos bolos assando no forno de barro que ficava numa casinha perto do pé de manga rosa no meio do quintal,do cheiro gostoso,dos peixes pescados,das pessoas da família reunidas ,da meninada se metendo em tudo...E o alvoroço para dar conta de tudo pro café da manhã e almoço de sexta santa. Lembro da voz e e do riso dos parentes que fizeram parte da minha vida e que não estão mais entre nós,meu tio Elizaldo, minha tia Maria,a mãe dela,dona Binoca e outros...Gente querida que não dá pra esquecer...
Por muito tempo foi tradição doar o que se tinha em abundância,legumes,verduras, massas, peixes, arroz,e receber em troca outros suprimentos.
Havia muita comunhão, sentimento de partilha e irmandade naquele tempo...
Todos eram iguais, não havia tanto egoísmo e individualidade como agora.Quase todo mundo da minha rua era parente,quem não era, também era considerado parente, todos católicos fervorosos,e as missas, começando com a de domingo de Ramos que era sempre muito esperada,cada um com seu ramo bem arrumado, vestidos na roupa de domingo, cheirando alfazema o lavanda,pé ante pé para a igreja...E é claro,a comoção em assistir ao sofrimento de Jesus, sexta -feira da paixão, na via sacra...E assim íamos a semana toda até o domingo de páscoa,na ressurreição. Como a semana santa acontece sempre em Março ou abril,o inverno deixava o clima assim meio melancólico... Taciturno...Nossa rua era afastada e isso transformava o caminho de volta num obstáculo devido às chuvas e por causa dos córregos.À noite o canto dos sapos,dos grilos,das corujas também era companhia certa na volta para casa pós missa,os mais velhos com lanternas na mão e os demais em fila indiana na vereda pra fugir da lama, e assim chegar em casa menos sujo. Tudo isso se repetiu por pelo menos uns quinze anos na minha vida...Depois tudo foi mudando e hoje pouca tradição daquele tempo permaneceu.
Na escola, também religiosa católica, todo ano o ritual era seguido à risca...As leituras bíblicas,as reflexões,as músicas, o lava -pés,a ceia...Sempre com muito respeito e devoção.O espírito fraternal era forte ,muito presente entre todos,foi justamente por causa dessa educação que foi além das disciplinas escolares ,porque foi uma educação também espiritual, que eu e muitos outros, conseguimos nos destacar e mudar para melhor, em alguns aspectos ,nossas vidas.Sou grata por essas memórias.
Roberta Ramos.