A ESSÊNCIA

Descrever o amor e o cuidado da minha mãe em palavras sempre me desafiou, uma vez que foram tantos momentos dignos de serem rememorados...Lembro de uma mulher que acabou abdicando da sua vida de "SER MULHER" tão somente, para viver uma vida de "SER MÃE" em tempo integral e apesar das tantas lutas do dia a dia e do desafio de ser mãe solo, de ter convivido com tantos julgamentos e ter recebido tantas portas na cara de oportunidades, de não ter podido estudar, de ter muitas vezes que se estressar ao extremo para extravasar suas angústias e  mágoas, mesmo com tudo isso...Sempre tirou um tempo para se aproximar... para brincar, para se igualar, nos sentir na pele de criança, ser como nós...E é dessa mãe que mais amo lembrar.

A mãe que foi um pouquinho de muitas grandes coisas...Mãe construtora de brinquedos, de pipas, de carrinhos de lata, de casinhas de papelão,de bonecas de pano, de carrapetas, de barcos de papel, de arapucas e de  balanços nas mangueiras. Além disso, exerceu inúmeras profissões de forma exímia,ao longo da minha meninice e do meu irmão,foi ...Quebradeira de côco, "fazedora" de cofos, de carvão, de cerca, capinadeira, plantadora de feijão, colhedeira de arroz, ,vaqueira, pedreira, cozinheira, vendedora de roupas e perfumes , costureira e doméstica em casas de família por muito tempo... neste último ofício,entrava no serviço pela manhã e só saía à noite, lá pras dezenove, vinte horas...Lembro que ficava aguardando sua chegada, esperando lanterna por lanterna que aparecia na estrada escura -época sem energia elétrica-até que uma voz conhecida denunciava sua chegada e meu coração se enchia de alegria,depois de tantas lanternas de decepções... A alegria aumentava quando ela trazia na sacola um pedaço de bolo,um potinho de doce de leite,ou de mamão, de banana, ou um pacote de salgadinho e ela sempre trazia algo, muitas vezes que ela abdicava de comer. Mas não deixava de trazer uma surpresa, isso quando trabalhava na casa de Dona Teresinha que era muito boa e fazia questão de oferecer esses quitutes para mãe trazer para nós.

Como não bastasse ainda ,foi e é a  mãe das receitas novas e gostosas (se virando para fazer algo para comer com o que tinha em casa),mesmo não sendo seu forte cozinhar, inventou... bolos e broas tapioca, caldos de legumes variados, bolo de arroz, beiju de massa de macaxeira, mingaus...e tantas outras, hoje ,com gosto de saudade e cheiro de infância.Sem esquecer do bolo da massa santista que ela fazia para vender na escola e dos pastéis crocantes,ainda sinto o cheiro da massa sendo sovada ,do sabor lambendo a bacia e do gosto do bolo quentinho.E ainda estava sempre pronta para dar um pouquinho do que tinha com quem aparecia e tinha ainda menos que nós: comida, roupa,um pouco de dinheiro, generosidade foi mais uma virtude que aprendi com ela. 

Na casa da minha avó, que era onde moravamos, sempre se ouvia uma cantiga cantarolada por ela, músicas e pedaços de músicas que são a cara de uma época e a cara de minha mãe:"Estrela do amanhã","Minha pequena Eva","As andorinhas voltaram"," chorando se foi","Lá no Centro da avenida","Tão perto das lendas", Se tens bigode de foca"..."e tantas outras inesquecíveis.

Ritinha Foi e ainda é uma grande incentivadora dos estudos, da educação.Sempre soube que o caminho mais honroso era o do conhecimento e mesmo não tendo possibilidades de estudar,sempre foi a mais crítica e cobradora dos nossos deveres de casa,das boas notas,do respeito aos mestres.Queria que fôssemos diferente dela,que furássemos a bolha, aparecessemos para o mundo.  O que sou, devo a ela, a sua insistência, persistência, cansaços,mas nunca desistência  de nós.E... Por tudo isso e mais, falar e /ou escrever sobre o que minha mãe é para mim,prazeroso, pois a cada linha que nasce sua vida se faz mais digna de ser escrita, descrita,narrada e compartilhada.E que assim seja por muuuitos anos. Amo-te!

Roberta Ramos

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