TRANSTORNOS

Por muito tempo me questionei sobre o fato de pensar tanto,sabe quando a cabeça não para e você aparentemente vive mais no plano dos turbilhões de pensamentos do que no plano da realidade?!Pois é,o famoso "mundo da lua".Assim minha mãe dizia,"essa menina vive no mundo da lua".Eram e ainda são situações e mais situações criadas e recriadas na memória,tanto como uma continuidade de fatos reais,como em casos totalmente inéditos ,imediatos e inusitados.Não conseguia sair totamente desse quase "mundo paralelo" por mais que me esforçasse.E enquanto pensava e pensava,o mundo real ficava a parte, assim eu acabava sempre fazendo ou falando algo errado sem perceber e acabava sendo repreendida ou virando chacota.E então comecei a criar certas estratégias para não parecer tão estranha,eu comecei ser meio "engraçadinha",sempre falando tudo em tom de brincadeira,sorrindo em todas as situações embaraçosas para disfarçar muitas vezes minha frustrações ou vergonhas,escondendo minhas verdadeiras emoções.Esse comportamento por sua vez, já deu passe livre para as pessoas acharem que poderiam me tratar de qualquer forma e dificilmente me levarem a sério.Ser "engraçadinha" foi e é minha camuflagem até hoje.A questão é que quando eu estava nos dias de "cão" e cansada de tanto fingir costume,eu explodia(isso era raro,mas acontecia) e as pessoas ficavam sem entender aquele comportamento inusitado e eu acabava me arrependendo de tratá-las assim.

A sensação que eu tinha era de que algumas coisas só aconteciam comigo,pelo menos era o que eu achava,que só comigo tudo de estranho acontecia.Não entendia porque sentia tudo numa intensidade "monstra",os acontecimentos me afetavam demais,tanto para coisas boas,como principalmente para as ruins.Quando sentia medo era num grau muito alto,tinha medo de ficar só,medo do escuro,medo de insetos,medo do sobrenatural,medo da morte,medo de gente... Fui obrigada a criar mais uma estratégia...recriar na mente os acontecimentos mais ruins que poderiam acontecer comigo ou com alguém da minha família quando fôssemos fazer qualquer coisa que fugisse da rotina,assim eu sentia que se pensasse ,eles nunca aconteceriam de verdade,era só uma tentativa frustrada de prever um possível futuro e assim evitar o pior.

MEDO, essa palavra me acompanhou a vida inteira e ainda acompanha até hoje.Por isso talvez muitos a minha volta,tanto adultos como crianças começaram a se aproveitar disso.Nas brincadeiras,quando menina,muitas vezes,meus primos e amigos me jogavam insetos,porque sabiam do medo,a brincadeira acabava pra mim,outras vezes quando minha mãe estava no trabalho "uma certa adulta" aproveitavam pra me aterrorizar,me trancava em quartos e outras vezes em quintais escuros,eu ficava apavorada, assombrada,ela se divertia com meu desespero e meus traumas tornavam -se mais e mais fortes.É bem verdade que algumas vezes eu aprontava bastante,era bem teimosa,mas mesmo assim era só uma criança.Esse comportamento dela não era frequente,mas me afetava demasiadamente,creio que a ansiedade que sinto e que atrapalhou tanto minha vida originou -se dessas situações e de outras que são mais delicadas para narrar aqui.

 Essa sensação de incapacidade também nasceu do fato de me sentir diferente,incapaz de fazer o que os outros faziam,de não conseguir aprender matemática com a mesma facilidade dos outros colegas,de não conseguir me comunicar com estranhos,de não conseguir andar só na rua(sempre tinha que estar acompanhanda com minha prima),de não ser espontânea como muitos da minha idade,etc.Eu fui "criando" manias que minha mãe chamava de "cestos", tendência para o
estrabismo,gagueira,TOC(contava tudo,marcava,repetia,criava desafios e me obrigada a realizá-los o tempo todo),mania de cuspia na gola da roupa, espremia espinhas e sinais até ferir,esses comportamentos davam muita raiva na minha mãe,que insistia em me chama pelo nome de "Lúcia do Cabeça Branca", Cabeça Branca era o apelido do pai dessa menina que morava no centro e que tinha possíveis problemas psicológicos.Isso me chateava muito,mas hoje até entendo a insatisfação dela.E todos os bloqueios que ia adquirindo se somaram ao que eu já adquiri de nascença,e que só percebi do que realmente de tratava há uns dez anos atrás,o indesejado TDAH, até o presente momento ainda não diagnosticado.Hoje fala-se muito desses transtornos de desenvolvimento e por isso descobri que todos os sintomas(as esquisitices ),batiam com tudo que senti a vida toda e só recentemente descobri também que ,no meu caso e da minha filha(que apresentou sintomas parecidos e aprendi que tudo é uma "herança"genética),esse H de (hiperatividade) é somente mental(o excesso de pensamento)e não quando causa inquietação.O TDAH,gerou sentimentos sabotadores,a insegurança,o medo,a fobia social e o outro resultado foi a ansiedade,muitas vezes acompanhada de crises de pânico e problemas estomacais e hormonais...Essas são minhas más companhias até então.

Por fim,houve mais um episódio que deixou os sintomas ainda piores:ter passado por um relacionamento abusivo que durou cinco anos.Vivido algumas situações que nunca imaginei passar,ter deixado meu orgulho de lado por algo tão pouco...Era realmente muito pouco.Mas quando finalmente pus fim,o resultado foi uma mulher ainda mais ansiosa e insegura.O ápice foi quando fui defender minha mono, meses depois de tudo,eu não consegui, não como gostaria,o pânico veio e se instalou,eu tinha uma pequena plateia de amigos que nunca tinham me visto como me viram e eu que sempre me orgulhei de ser tão preparada,de não mostrar minhas fraquezas,desabei...Foi muito difícil,eles tiveram que sair da sala para eu consegui...Me odiei muito por isso, até consegui concluir,mas foi a gota d'água pra mim.Depois de um tempo melhorei porque sempre penso"tudo poderia ter sido ainda pior",e fui empurrando os sentimentos negativos com a barriga.

Mesmo entendendo meu quadro eu continuo me deixando de lado para focar na minha filha,para que ela não sofra tanto como eu.A palavra TERAPIA,parece ser a luz no fim do túnel para mim e para ela.Precisamos entender e gerenciar com sobriedade nossos sentimentos...Ainda não comecei,mas é meu projeto mais urgente.

Postagens mais visitadas deste blog

SEM PAUSAS

INESPERADA

A CASA E OS QUINTAIS