O HOMEM DE BIGODE


A mais ou menos uma semana ,soube que meu genitor estava muito mal na UTI de um hospital e ainda está neste momento.Não soube pelos parentes ,mas por pessoas vinculadas à família dele.Uma bactéria se aproveitou do seu estado de fragilidade após uma cirurgia séria.E confesso que não senti quase nada de tristeza ou dó, mesmo sendo ele um sangue tão próximo...E nem poderia sentir. Meu sentimento foi de reflexão como faço e sinto em relação a outras pessoas que são apenas conhecidas.
Mas hoje... Me bateu uma certa melancolia ao imaginar como tudo poderia ter sido diferente, se eu não fosse tão orgulhosa como ele, e tivesse me aproximado,pelo menos para conversar e tivesse deixado de esperar que ele tomasse essa iniciativa um dia.Nunca exigiria uma presença constante,nem abraços e muito menos beijos,mas talvez tivéssemos ao menos quebrado esse iceberg que se formou nesses 42 anos da minha vida.Nenhuma palavra,nem de cá e nem de lá,mesmo ficando muitas vezes quase lado a lado.Talvez eu tiraria parte de uma culpa que talvez ele carregasse, ou não.Porque nunca soube como ele se sentia quanto a isso.

Quando criança e fui entendendo que não tinha pai presente,foi um pouco difícil,porque via que todos os meus amigos tinham,mas me conformava em chamar meu tio de pai, então tudo ficava bem. Aquele homem de bigode que vi somente uma vez de relance dentro da cabine de um carro, enquanto eu e alguns parentes pegávamos carona na carroceria, eu só veria novamente depois dos os meus quase 30 anos ...Ele era estranho, raramente visitava a cidade por causa de um processo na justiça,
andava se escondendo. Ele me causava um certo medo ou temor, até porque eu já sentia mesmo medo de toda pessoa de fora do meu convívio,e vivia atentada por muitos vizinhos e parentes meus sempre que me viam e sempre diziam:Olha a filha do Paulino!Cadê a loirinha filha do Paulino?!,Ah,tua tia Graça,Ah,porque teu tio Antônio,e teu primos,etc.E eu me encolhia com vergonha.
Tenho comigo um fio de vaga lembrança em que fui levada a loja deles,a Paraense,acho que com uns 4 ou 5 anos pela minha avó,eu andava pela loja e ficava admirando um suporte de plástico de mesa verde que imitava renda,não lembro se ele estava na loja,mas me pareceu que sim.

Fui crescendo e sabendo melhor das histórias...
Que mãe tinha trabalhado na loja dele e do irmão, Antônio ,e que foi nesse período que ela engravidou de mim.Acho que foi coisa rápida e logo acabou.Que depois que eu nasci minha mãe ainda trabalhou na casa da irmã dele Graça,mas que não deu muito certo por eu ser muito pequena ainda.Que eu me parecia fisicamente com a família do meu pai, eu nasci muito branquinha e loira, enquanto minha mãe negra.Que ele não queria filha mulher,"porque só dava vergonha",que ele era muito machista,(talvez esse tenha sido o motivo de não ter se aproximado, não sei).E que nem precisou de d.n.a.pra saberem que ele era mesmo meu pai.Que quando era bebê ele  pediu pra me ver e minha mãe não deixou.E tantas outras coisas...

Nunca consegui me aproximar, como parte da família dele,porque sempre achei que quem deveria ter feito essa ponte era ele e não o fez, não escolheu ajudar pelo menos com um pouco minha mãe me criar, já que ela passava por muitas dificuldades, não escolheu pelo menos tentar se aproximar,falar,visitar,nada!

Mesmo assim eu gostava muito quando a irmã dele ,Graça mandava para mim roupas, sandálias, até brinquedos usados das minhas primas,usava tudo com muito gosto,e quando meu tio chegava com uma sacola de mantimentos que ela mandava,isso era raro,mas sempre recebiamos com muito gosto.Nao sei como, mas por muitas vezes,eu até achava legal ter esse pai estranho e essa família "importante" como parente,porque minhas amigas ficavam com uma certa invejinha quando eu recebia os presentes usados e chics dos meus primos.Eu me sentia estranhamente especial.

Antonio sempre me considerou muito e eu a ele.Uma vez,já com os meus 15 pra 16 anos recebi uma vaca de presente,ele disse que era do gado do meu pai que estava no terreno dele.Minha única herança kkk.Antonio sempre gostou muito da minha mãe,sempre a ajudou quando pode.Outro irmão dele,Pedro, quando eu tinha essa mesma idade, veio me visitar, chegou de surpresa para me ver,agora pense numa menina desconfiada,sempre desconfiada.Ele ainda iria na nossa casa mais uma outra vez, não lembro o ano.

Um certo dia,com mais de 30 anos eu conheci quase todos os outros irmãos dele,alguns primos e até minha avó e cheguei até a conhecer,mais tarde,o filho dele mais novo,menos ele, só de vista.Há uns três anos conheci um outro rapaz que se dizia seu filho também e que tinham conversado por umas duas horas por telefone.E hoje, me pego pensando e escrevendo sobre isso...

Agora dia 17/11 acabo de receber a notícia do seu falecimento...Eu não acho que deveria dar algum tipo de perdão por não ter sido um pai pra mim,foi escolha dele,espero que ele tenha vivido bem com suas escolhas. 
Perdão quem deve dar é somente Deus.E que Deus tenha misericórdia da sua alma e o acolha.🙏🏼

Uns dois meses depois do acontecido,meu tio Antônio me procurou que tinha um dinheiro para me entregar, dinheiro de um gado do meu pai que ainda estava no terreno dele e que ele tomou a decisão de vender e dividir entre os filhos dele...Não era muito,mas...Eu recebi e agradeci.

Postagens mais visitadas deste blog

SEM PAUSAS

INESPERADA

A CASA E OS QUINTAIS