INCONSEQUENTE

A menina inconsequente sempre agia por impulso, não calculava as efeitos dos seus atos, primeiro por ser ainda criança, segundo por ser uma criança mais que desconectada, avoada, possivelmente tdah e ansiosa ao extremo. Pegava muitos cascudos desavisados e dolorosos da tia megera e cascudos não tão dolorosos da avó pelas "malinações".Era evitada algumas vezes pelos vizinhos porque não tinha noção de tempo,de tempo de almoço, de descanso e nem de janta dos outros e nem dela mesma. Por muitas vezes a mãe tinha que chamá-la para almoçar ou jantar da casas alheias. A ansiedade nunca a deixava tirar o sono pós almoço. Raramente conseguia cochilar à tarde, então, enquanto os outros faziam a cesta, ela aproveitava pra fazer travessuras do tipo, "roubar" da avó : leite em pó , açúcar para fazer pirulito, farinha pra comer com açúcar, fio das plantas para dar para a vizinha,ou pegar o material de costura  para fazer roupas de bonecas... Depois nunca guardava -os do mesmo jeito e a avó  acabava descobrindo e a confusão era grande.

 Ainda lá pelos onze e doze anos aproveitava para pegar a bicicleta do tio, aprendeu sozinha aos trancos e barrancos, descendo a ladeira da rua descontrolada porq a bicicleta Monark tinha um varão alto e não tinha freio ,e ainda acabava se esborrachando nas calçadas, mas assim ela aprendeu.Curiosa como toda criança ,gostava de observar os namoricos que aconteciam na rua,pois tinha uma sexualidade aflorada desde a infância e ela não sabia como isso tinha acontecido. Continou criando ambientes e situações libinosas sempre que podia para satisfazer suas vontades. 

E assim foi crescendo, lentamente, lerdamente, cometendo muitas pequenas gafes, recebendo trocos errados, dando sustos exagerados nas pessoas , pegando carão de caminhoneiro por ter subido no capô novo, brincando com pessoas na hora errada, sem perceber que estava sendo inconveniente, sorrindo mais que o normal...A tia dizia: "Ô menina da boca grande!" e a avó:"Maria dente na fresca!"Porque era com risos que ela tentava dissimular tudo que a incomodava,os risos quebravam o gelo,e esses mesmos risos ,às vezes, incomodavam os outros...Não percebia quando passava do ponto.E muitas vezes não entendia que quando era ela quem se chateava com alguém,ainda assim,ela tentava não magoar ou constrangê-las, mas essas mesmas pessoas não agiam da mesma forma com ela, que por ser tão sorridente ,achavam que ela nunca se importava.Mas ela se importava e muito, e sentia uma raiva danada...Uma outra mania estranha começou a persegui-la, como,contar todos os passos,andar só por cima do capim,ou das calçadas, levantar da cadeira um número X de vezes...Etc.só na fase adulta descobriu que era um tipo de transtorno(TOC).

Outro "dom" herdado da desatenção e falta de percepção era a facilidade que ela tinha em se desequilibrar,como ao segurar no colo os primos, foram algumas grandes quedas dadas, o que deixava a tia em fúria... Até parece que atraía os buracos e lamaçais da rua para seus pés...Uma vez numa ida aos vizinhos ,pisou num pintinho,matou o bichinho instantâneamente, isso a deixou em choque por muito tempo, tempos mais tarde em casa, pisou num gatinho,o bichinho passou três dias para terminar de morrer, mais um grande trauma...E bem depois passou por cima de um patinho com o pneu da bicicleta.Pronto!Era uma serial killer dos bichinhos. Essas lembranças a perturbaram por muito tempo,os primos não perdoavam e sempre usavam isso contra ela ,como gostavam de persegui-la!E até hoje acho que esses acidentes só aconteciam com ela.

Lá pelos quatorze anos, tornou-se  mais ciente de muita coisa,as idas à vizinhança diminuiram consideravelmente, as brincadeiras nos quintais foram ficando raras, as relações com as amigas da rua foram se alargando...Ela foi entendendo toda a conjuntura das relações que a arrodeava,como o fato de viver em meio à famílias que se protegiam, e ela só tinha praticamente a proteção da mãe(o que era muita coisa),talvez por isso nunca se sentiu totalmente acolhida.

Na escola ela pode escolher as suas amigas de verdade, não havia laços de parentescos entre elas, então, eram somente amigas e só, o que ela considerava ótimo.E com essa nova turma, ela se divertiu, sorriu, aprendeu, viveu os melhores momentos até a maioridade...E as colegas da rua, tornaram-se apenas conhecidas ,o que nunca foi problema,porque ela entendeu que alguns ciclos podem se encerrar.

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